ilustração: Bruno Oliveira
29 jul. 2010
UM DEDO DE PROSA
Elogio da amizade

Sentimentos humanos todos são
alegria, soberba, piedade, orgulho.
De todos estes em qual a emoção
de ser pleno e humano, sem esbulho?
Não perco causa, nem razão,
digo sem medo, não me maculo
o sentimento humano, primeiro, de verdade
é o sentir e ter a verdadeira amizade.

De tudo que para si o homem criou
dinheiro, estatus, poder, sesmarias
de tudo quanto Deus para nós deixou
dor, sofrimento, tristezas, alegrias
e outras múltiplas de que aqui não cuido
e de todas pequenas, galantes ninharias
valor ao poder, ao cetro, à liberdade
mas sempre por maior a amizade.

Quando o homem nada no rio de dinheiro
e lhe vêm muitos, pressurosos, à procura
deve entre todos escolher
nem o primo, nem o derradeiro
aquele das horas boas e dos séculos de amargura
não será nem o bancário, nem o banqueiro
nem terá de si idéia de absoluta força e estatura
deverá ser convicto em aparência e realidade
que entre todos possíveis o maior sentimento é a amizade.

Podemos buscar sempre, continuadamente
o que satisfaz o intelecto e o físico humanos
valores móveis, prendas, prêmios, bens semoventes
degustar o prazer, satisfazer os sentidos em todos os planos
correr o mundo, ver mares, falar a todas as gentes
do corpo e alma atender todos os reclamos
enfim, mesmo tendo no amor a felicidade
ele se completa, torna-se maior na amizade.

Se queremos conhecer o vero amigo
aquele que tem para nós bons sentimentos
mais nas horas de dor e tristeza
que nas de contentamento
o encontramos firme ao nosso lado,
certeza transmitindo sem choros e lamentos :
“Passará, passará a tempestade.”
Deste modo se revela a verdadeira amizade.

O homem tem nesta vida muita atribulação
o sofrimento, a dor, a angústia, a má surpresa
mão forte no leme, poupar o coração
eis a lição que aprendida ajuda a natureza
a vencer-se, a se pautar pela razão
buscando no meio dos embates a certeza,
separando o joio do trigo, a mentira da verdade,
misturando com maestria alegria, amor, amizade.

O amor dá ao homem a referência de si
do espírito com o corpo a perfeita conjugação
o amor busca a gratidão de doar-se
em paga do receber a outrem em doação
e na razão do querer e desejar completar-se
nos planos corporais e da emoção
para não viver só do sonho, estar na realidade
o homem precisa ter o complemento da amizade.

Se a sabedoria popular separa amizades várias
é que nem tudo que se diz ser é a verdadeira
e quando pensamos e falamos às claras
só uma emerge, só um tipo com certeza
preenche as características e virtudes preclaras
que deve ter relacionamentos de tal natureza
não ter segredo, só verdade, paciência à saciedade,
assim brota, vinga e cresce a verdadeira amizade.

Parafraseando o apóstolo sobre a caridade
podemos dizer sem denodado raciocínio
a amizade é paciente, ama muito a verdade
tudo espera, tudo crê, é pura como um menino
ainda que eu fale todas as línguas e tenha do mundo a metade
e possa remover montanhas por meus desígnios
sem a amizade tudo será uma sinfonia sem música
um grito destinado a uma platéia surda.

Por Geraldo Felix Lima

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